Michel Gherman: “O conflito Palestino – Israelense tem muito mais do que dois lados”

por Michel Gherman

Esta é minha primeira semana neste retorno a Jerusalém e (finalmente) posso ter uma certeza. E com esta certeza aqui vai também um recado aos preguiçosos, simplificadores e patrulhadores de plantão: o conflito Palestino – Israelense tem muito mais do que dois lados e muito mais cores do que se imagina!

E as fichas vão caindo. Ligo pra Mariam, amiga minha palestina do leste de Jerusalém. Mulher radical, anti-sionista. Minha preocupação é saber como ela está – ela esteve trabalhando em um projeto em Gaza e tem família lá. Ela disse que, por enquanto, estava tudo bem, que estava preocupada, e passou a vociferar contra o Hamas. Mariam é feminista e sabe bem no pé de quem o calo aperta em Gaza do governo do Hamas. Ela diz: “Agora sim o Hamas e seus aliados estão enturmados e fazem bem o que esperam deles”. Do que você está falando Mariam? “Os reacionários do Qatar e a direita fascista de Israel começaram a dialogar. Conversam pelos foguetes”.

Na televisão, vejo Ephraim Sne, ex-ministro do Partido Trabalhista, comentar: “Alguém tem alguma dúvida de que o Hamas e o Governo Bibi/Liberman são aliados? De um lado, Abu Mazen tenta dialogar e exige o reconhecimento da Palestina; de outro, o Hamas tenta deslegitimar o governo Palestino da Cisjordânia e não tem nenhuma movimentação política em nível internacional. O governo Bibi/Liberman quer acabar com qualquer possibilidade de diálogo. Abu Mazen está enfraquecido em um mar de novos governos da Irmandade Muçulmana. O que falta para a vitória do núcleo Hamas – Bibi/Liberman? Uma Guerra. De preferência, com vítimas civis dos dois lados”. Ao lado de Sne, uma deputada do Likud cujo nome não lembro (e que diferença faz?) tem olhos fixos na tela dizendo: “Exército deve entrar neles, é o momento de mostrar para eles…”. Ok.

Eleições em Israel, fenômeno interessante: pela primeira vez, há mais jornalistas concorrendo do que generais, o que causa um sentimento de insegurança nas forças que estão no poder. Além disso, as pesquisas apontam para um fortalecimento do bloco de centro-esquerda, que circula hoje em torno de uma agenda social e não de política internacional. Opa! Uma Guerra faz voltar tudo ao mapa da simplificação, então… Por que não?

Liberman e Bibi, de olho nas eleições, concordam, e o Hamas, de olho em Abu Mazen, apoia. Inicia-se o diálogo fundamentalista-direitista. Formam-se torcidas, surgem vítimas… “Ufa que alívio, tudo volta para um cenário mais previsível e confortável”.

Quinta –feira, dia de sol, quente e agradável. Ligo pra minha irmã, que mora em Gan Yavne, não distante de Gaza e com quem tinha falado ontem à noite, logo após o exército israelense ter matado Ahmed Jaber, líder do Izzadim Al Kassam, grupo militar do Hamas. Do outro lado da linha, ela estava assustada com as sirenes e avisos de ataque – mais de 20 em um dia. Hoje, ela está mais tranquila. Saiu de Gan Yavne, em direção a Jerusalém. Diz que a noite foi mais calma, que o problema foi a manhã, com mais de 10 sirenes, suas duas crianças de 3 e 1 ano chorando e interrupções constantes na arrumação das malas para entrar em abrigos. Há dúvidas de que se tratam de vítimas civis?

Se ainda há dúvidas (e pra contribuir com a percepção de complexidade que este conflito tem), conto minhas experiências nas ruas de Jerusalém pela manhã.

Saio para pagar uma conta, volto de ônibus. Na minha frente, uma menina morena de 18 anos com uniforme do exército e cara de colegial. Está claro que exerce alguma função meramente burocrática no exército, impressão que se confirma na conversa seguinte: “Mãe, ainda tem bombas em Kriat Malachi? Teve sirene hoje? Bom, vou te falar uma coisa: Haim morreu; e Milena tá ferida. É, me avisaram agora. Calma… toma a água e me liga”.

Não tenho certeza se eram esses os nomes, mas o importante nesta cena é o que se entende com a origem das vítimas: Kriat Malachi é a periferia da periferia social de Israel. Judeus de origem norte africana, imigrantes etíopes e russos habitam uma das cidades com piores índices sociais do país, de onde é raro saírem comandantes e executivos. Kriat Malachi é uma cidade de soldados, operários e desempregados, apesar de eventualmente surgirem políticos canalhas. A menina que fala ao telefone tem a voz firme, apesar de mãos trémulas. Ao desligar, chora em silêncio. Há alguma dúvida de que se trata, apesar do uniforme, de vítimas civis?

Para terminar as experiências da manhã, observo, em minha chegada à universidade, uma manifestação. De uma lado, estudantes com bandeiras palestinas; de outro, estudantes com bandeiras de israel. O “lado israelense” grita pela libertação de Gaza, se referindo ao fim do governos Hamas. O “lado palestino” berra contra o Estado Terrorista. A manifestação, apesar de barulhenta, não cria comoção: a maioria dos estudantes, árabes e judeus, passa e decide não se manifestar, em nenhum dos “dois lados”…

Hoje, não conversei com nenhum habitante de Gaza; não conheço ninguém que viva em Gaza hoje. Tenho que dizer que a característica das futuras vítimas civis de Gaza e de Israel (e não tenho dúvida que serão em número desproporcional, o que não afeta a análise) é essencialmente a mesma. São vítimas por opção… opção de seus respectivos governos.

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Michel Gherman possui graduação em História com licenciatura em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É Mestre em Antropologia e Sociologia pela Hebrew University of Jerusalem. Atualmente, cursa doutorado no Programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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Uma Resposta para “Michel Gherman: “O conflito Palestino – Israelense tem muito mais do que dois lados””

  1. Bruno Ruivo
    15/11/2012 em 19:51 #

    Netanyahu e Hamas conversam com mísseis. Algo que já faziam desde 1996 quando as bombas do Hamas elegeram o Netanyahu com 1% de vantagem.

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